Velho amigo jamais esquecido,
bem sabes tú das minhas dores
pois me acompanha a toda a parte
e vês que meu peito clama por ar e liberdade
enquanto nele te aninhas
como a criança assustada no colo da mãe
Mas em meu peito não procuras por segurança
teu único desejo é tornar-se peso
e ainda te remexes todo a cada vacilo do meu coração
para me lembrar da tua presença ali
que de tão constante às vezes passa despercebida
(Este companheiro que carrego em mim
tornou-se tão fiel quanto possessivo
Se mesmo se relance avisto algum sinal de paz
já vem ele a remoer minhas artérias
lacerar minha esperança)
Mas não foi sempre que estivestes ao meu lado
Lembro-me bem que chegastes devagar
pé ante pé, como uma visita que não quer incomodar
e quando dei por mim
já havias te estabelecido e não tinhas planos de ir embora
Nunca te fiz objeção alguma
em minha casa sempre tivestes toda a liberdade e respeito
devidos a uma ilustre visita.
Do mundo externo cuidastes tú
para que nenhuma ideia atrevida
ousasse criticar nossa união
mantendo-me cega, surda e muda
para meu próprio bem
Só te esquecestes de um detalhe
quando te trancastes aqui:
A tua sujeira, teu lixo, teu veneno
acumulados por todo este tempo
agora começam a escapar por todos os lados
e incomodar aqueles que sempre suportaram a tua presença
Minhas pernas cansaram de carregar teu peso
Minhas mãos não suportam mais continuar tremendo
Meu peito está cansado de sua falta de bons modos
E meu coração puído não o quer mais carregar
Posso agora ouvir com clareza
Minha língua se soltou
E meus olhos se abriram
Ahh, medo...
como é linda a vida
quando não estás aqui
me alienando dela!

Nenhum comentário:
Postar um comentário